flowchart TB
subgraph REL["três relatos, colhidos separadamente"]
A["relato A<br/>a peça girava bem<br/>na janela do monitor"]
B["relato B<br/>desviei de uma mesa<br/>que não estava lá"]
C["relato C<br/>o vaso sobre a mesa da cozinha<br/>escorrega quando eu ando"]
end
subgraph VOC["as três palavras do vocabulário"]
I["imersão<br/>propriedade do sistema"]
P["presença<br/>resposta da pessoa"]
R["registro<br/>geometria contra o mundo visível"]
end
A -.-> Q1["a que palavra<br/>este relato dá evidência?"]
B -.-> Q1
C -.-> Q1
Q1 --> I
Q1 --> P
Q1 --> R
R --> COND["exige mundo físico visível<br/>onde não há, fica indefinida"]
1 O contínuo entre o sintético e o real — Exercícios
Os três problemas desta página não desenham um polígono sequer, e mesmo assim decidem coisas que material bonito nenhum conserta depois. Você vai ler relatos de quem usou três sistemas e dizer que palavra cada relato sustenta, comparar duas fichas técnicas com uma conta de milissegundos ao lado, e emitir um parecer sobre um guia de manutenção que aponta setas para válvulas físicas. Nenhum deles pede que você abra código próprio ou retome algo que já estava em andamento: cada cenário está descrito por inteiro aqui, com os números de que você precisa e a unidade colada neles.
O vocabulário cobrado é o mesmo do capítulo, e são cinco palavras. Contínuo, imersão, presença, registro e espaço de referência. Se em algum momento a sua resposta puder ser escrita trocando uma dessas palavras por outra sem mudar de sentido, alguma das duas está sendo usada errado — e é justamente aí que estes três exercícios cutucam.
Como trabalhar estes três. Lápis, calculadora e prosa bastam; nenhum exige que você execute coisa alguma, e todos exigem que você diga por quê. Faça na ordem: o primeiro se resolve com a leitura do capítulo na mão, o segundo pede uma conta e uma comparação honesta, e o terceiro junta espaço de referência, registro, composição de imagem e uma conta pequena num cenário que você nunca viu. Uma regra de honestidade atravessa os três: nenhum número que você não tenha calculado a partir dos dados destes enunciados entra na sua resposta como se alguém já o tivesse medido.
1.1 Exercício 1: Três relatos e um vocabulário só
Nível Básico — aplicação direta de conceitos
Alguém colheu, em três ocasiões diferentes, o relato de quem tinha acabado de usar um sistema. No relato A, a pessoa olhou uma peça numa janela do monitor comum, girou a cena com o mouse e contou que a peça girava bem e que dava para vê-la por baixo. No relato B, a pessoa usou um visor que cobria o campo de visão inteiro e, ao andar pelo ambiente exibido, desviou o corpo de uma mesa que não existia no quarto onde ela estava. No relato C, a pessoa apontou a câmera do celular para a mesa da própria cozinha, viu um vaso desenhado sobre a madeira e reclamou que o vaso escorregava uns 3 cm para o lado enquanto ela andava em volta, voltando ao lugar certo assim que ela parava.
O que peço de você: escreva, em prosa, a leitura técnica dos três relatos, em três partes. Em (a), diga a qual das três palavras — imersão, que é propriedade do sistema; presença, que é resposta de quem usa; registro, que é a relação geométrica entre o desenho e o mundo físico visível — cada relato dá evidência, e justifique cada escolha pela definição, e não pela impressão. Em (b), aponte em qual dos três sistemas a palavra registro não se aplica e explique, em duas ou três frases, a diferença entre dizer que um registro está ruim e dizer que ele está indefinido. Em (c), volte ao relato C, classifique o erro descrito como estático ou dinâmico e escreva a observação que distinguiria um do outro, deixando claro o que você veria em cada um dos três desfechos: hipótese confirmada, hipótese contrariada e resultado inconclusivo.
Um aviso que economiza discussão: em nenhum dos três relatos a pessoa mencionou preço, marca ou resolução de tela. Se a sua resposta em (a) precisar de alguma dessas informações, ela está respondendo a outra pergunta.
Você terá terminado quando as três associações estiverem escritas com a razão ao lado, quando a palavra indefinido em (b) estiver justificada pela ausência de um objeto contra o qual medir, e quando o procedimento de (c) puder ser executado por outra pessoa sem que ela precise perguntar nada a você.
1.2 Exercício 2: Duas fichas técnicas e uma conta de milissegundos
Nível Intermediário — comparação e cálculo
Imersão foi definida como um conjunto de grandezas objetivas, I = (\phi, \ell, g, f), em que \phi é o campo de visão coberto pela imagem, \ell é a latência entre o movimento do corpo e a atualização correspondente da imagem, g é o número de graus de liberdade rastreados e f é a cadência com que as imagens são apresentadas. Considere agora dois sistemas hipotéticos, descritos apenas por essas quatro grandezas. O sistema P tem \phi = 100°, \ell = 45 ms, g = 6 e f = 72 imagens por segundo, e exibe uma cena caprichada, com materiais detalhados e sombras suaves. O sistema Q tem \phi = 60°, \ell = 18 ms, g = 3 e f = 120 imagens por segundo, e exibe a mesma cena reduzida a arestas de arame cinzentas sobre fundo escuro.
flowchart LR
subgraph FICHA["o que a ficha técnica mede"]
F1["campo de visão coberto"]
F2["latência entre movimento<br/>e imagem correspondente"]
F3["graus de liberdade rastreados"]
F4["cadência de imagens"]
end
subgraph SIST["os dois sistemas a comparar"]
P["sistema P<br/>cena caprichada"]
Q["sistema Q<br/>cena de arestas de arame"]
end
P --> FICHA
Q --> FICHA
FICHA --> IM["imersão<br/>quádrupla, não nota única"]
OBS["comportamento observado<br/>de quem usou"] --> PR["presença"]
IM -. "não implica" .-> PR
FORA["fidelidade visual<br/>resolução e material"] -. "fora da quádrupla,<br/>por decisão" .-> IM
O que peço de você: compare os dois sistemas em quatro partes curtas, nesta ordem. Em (a), calcule o intervalo entre duas imagens consecutivas de cada sistema, a partir de \Delta t = 1000 / f em milissegundos, e diga que parcela mínima de \ell a cadência sozinha já impõe a cada um deles. Em (b), responda qual dos dois tem mais imersão — e, antes de responder, decida se a pergunta assim formulada admite resposta, dado que I é uma quádrupla e não um número único; nomeie em quais coordenadas cada sistema vence e em quais ele perde. Em (c), explique por que nenhuma das duas fichas prova que alguém vai se comportar, dentro do ambiente exibido, como se comportaria num ambiente físico com as mesmas propriedades, e descreva duas observações de comportamento que seriam evidência disso. Em (d), diga que grandezas ficaram deliberadamente fora de I e explique por que essa ausência é o que sustenta a separação entre imersão e presença.
Uma restrição que faz parte do exercício: não escreva, em parte alguma, um limiar do tipo “acima de tantos milissegundos a presença cai”. Esse número não está no capítulo, não foi medido em lugar nenhum deste percurso, e responder com ele fabrica uma referência que ninguém pode conferir. O que você pode afirmar sobre \ell é comparativo — qual dos dois sistemas atrasa mais, e o que a diferença muda na coerência entre o que o corpo faz e o que os olhos recebem.
Você terá terminado quando tiver dois números calculados em (a), uma posição defendida em (b) com as coordenadas nomeadas, duas observações concretas em (c) e uma frase em (d) que separe o que a ficha mede do que ela não alcança.
1.3 Exercício 3: Oito válvulas iguais e um zero mal escolhido
Nível Desafiador — integração de conceitos e transferência
Uma equipe que você não conhece escreveu um guia de manutenção para um painel hidráulico real, e o cenário está inteiro descrito aqui. O painel é uma chapa vertical com oito válvulas fisicamente idênticas, alinhadas numa fileira horizontal, com 12 cm entre os centros de duas válvulas vizinhas. O guia desenha, sobre o painel visto pelo aparelho, uma seta e um rótulo apontando a válvula que deve ser fechada. Quem opera segue a seta, e não tem como distinguir as válvulas por outro meio, porque elas são iguais. Existem três versões do guia, e elas diferem só na regra que fixa a origem do mundo virtual: na v1, a origem é um ponto arbitrário escolhido por quem modelou a cena; na v2, é o chão do espaço físico, estimado pelo rastreamento do aparelho; na v3, é a própria superfície do painel, detectada durante o uso. Os rótulos, nas três versões, foram desenhados como texto preto sobre um retângulo branco, e o aparelho compõe a imagem por soma: a luz sintética se acrescenta à luz que já chega ao olho, e não há operação disponível que retire luz.
flowchart TB
subgraph VER["três versões do mesmo guia sobre o painel real"]
V1["v1 — origem em ponto<br/>arbitrário da cena"]
V2["v2 — origem no chão<br/>estimado pelo aparelho"]
V3["v3 — origem na superfície<br/>do painel, detectada"]
end
V1 --> G1["ganha liberdade total<br/>de composição"]
V2 --> G2["ganha escala corporal<br/>e alcance de braço"]
V3 --> G3["ganha registro<br/>conferível a olho nu"]
G2 --> E2["pode errar a altura<br/>do piso estimado"]
G3 --> E3["a superfície detectada<br/>pode ser revista durante o uso"]
subgraph MAT["o material dos rótulos"]
M1["texto preto sobre<br/>retângulo branco"] --> M2["composição por soma<br/>de luz no aparelho"]
end
E2 --> USO["quem opera escolhe<br/>uma entre oito válvulas iguais"]
E3 --> USO
M2 --> USO
O que peço de você: escreva um parecer técnico sobre as três versões, em quatro partes, na ordem abaixo. Em (a), situe v1, v2 e v3 nos degraus da escada de espaços de referência, dizendo em cada uma quem decide a origem, o que aquele degrau compra e o que ele passa a poder errar; diga também qual das três é imprestável para este guia, e por quê.
Em (b), trate do erro geométrico com números. Suponha que, na v2, o rastreamento estime o piso 4,0 cm acima da altura real, de modo que a fileira inteira de setas nasça deslocada 4,0 cm na horizontal em relação às válvulas. Calcule a metade do espaçamento entre válvulas vizinhas, compare-a com o deslocamento e responda se ele basta, sozinho, para que a seta passe a apontar a válvula errada; mostre a comparação que sustenta a resposta e diga quanto da margem disponível ele consome. Classifique esse erro como estático ou dinâmico. Em seguida, diga que família de erro aparece na v3 quando o aparelho revisa, no meio do uso, a superfície que havia detectado, e descreva o que quem opera vê acontecer com a seta.
Em (c), examine o material dos rótulos contra a composição por soma. Diga o que acontece com o retângulo branco, com o texto preto e com o contorno da seta quando a imagem é somada à luz da oficina, reescreva a regra de material que salvaria a legibilidade, e explique por que essa correção não cabe como ajuste de acabamento no fim do trabalho.
Em (d), trate da conferência entre as versões. A equipe quer confirmar que as três são mesmo distintas, comparando as declarações duas a duas em campos idênticos — o que se faz com o mundo, que espaço de referência se pretende, o que se rastreia e contra o que se registra. Calcule quantas comparações par a par isso exige com três versões e quantas exigiria com cinco, usando \binom{n}{2} = n(n-1)/2, e diga o que a conferência detecta quando duas declarações saem idênticas nesses quatro campos.
Feche o parecer com um parágrafo sobre quem opera o painel. Com o guia da v2 deslocado, essa pessoa fecha a válvula vizinha, descobre o engano depois e conclui que se distraiu — e, na vez seguinte, olha com mais atenção para a mesma seta errada. Diga por que esse comportamento não vem de desatenção de quem opera, e por que um defeito que faz a pessoa culpar a si mesma sai mais caro de corrigir do que um que trava o programa na cara de quem o escreveu.
Você terá terminado quando o parecer tiver os três degraus nomeados em (a), a comparação numérica e as duas famílias de erro em (b), a regra de material reescrita em (c), os dois números de comparações em (d), e um parágrafo final que descreva o que a pessoa fez sem atribuir falha a ela.
Método, para quando você travar. Nos três, a pergunta que destrava é a mesma: de quem é a grandeza que eu estou usando? Imersão mora no equipamento, presença mora na pessoa, registro mora na geometria entre a cena e o mundo visível — e metade dos erros deste assunto é uma resposta correta sobre a grandeza errada. Escreva sempre a unidade ao lado do número, mesmo quando parecer pedante: centímetro e grau medem erro de registro, milissegundo mede atraso, e misturar os dois numa mesma frase costuma esconder que o conserto foi mandado para o lugar errado. E quando você afirmar que alguma coisa melhorou, diga contra o que ela foi medida. Afirmação que não pode estar errada não chega a ser afirmação, e é essa peneira que separa uma especificação de uma intenção com formatação melhor.